Arquivo do mês: outubro 2009

Casa nova

Estamos de casa nova. Há um tempo assinei um contrato com o ClicRBS e de agora em diante, nossa nova morada é lá: http://www.clicrbs.com.br/casadeanita/

O blog continua exatamente igual. Essa semana não estou muito religiosa em função do projeto de doutorado, no qual – pasmem – esse blog me ajudou muito a consolidar minhas ideias.

Amanhã prometo escrever 😉 Por isso, salve o novo endereço em seu navegador e em breve nos vemos, na nova Casa de Anita.

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Histórias singelas

Ana Emília Cardoso

O garoto estava aprendendo a contar. Ele e o pai alternavam-se falando os números em voz alta. Um, dizia o pai. Dois, gritava o guri. Lá pelos trinta e poucos, o pequeno interrompeu o pai: vamos até bilhões? e se justificou: é que eu gosto muito, muito de bilhões.

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Minha filha era tão pequena quando ganhou uma Barbie de sua priminha que a primeira coisa que fez com a boneca foi chacoalhá-la para cima e para baixo. Pula, Barbie! ela dizia. Na verdade faz isso até hoje, só pra fazer graça, porque já me ouviu comentar o assunto.

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Sua mãe jamais havia lhe dado doces. Era nutricionista. Um dia, com seus 6 anos, provou um bolo de chocolate, uma nega maluca, na casa de um amiguinho e acreditou ter encontrado o sentido da vida. A mãe, ao sabê-lo, resignada, comprou uma lata de Nescau, na volta para casa. De noite, o menino sonhou com brigadeiros, sorvetes e barras de chocolate. Deve ter sido osmose. Acordou abraçado na lata.

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Minha avó lhe encomendou um litro de álcool, que naquela época era vendido em garrafas de vidro. Seis anos, bicicleta, bermuda com suspensório e lá se foi meu pai em alta velocidade buscar a encomenda. Cuidado pra não derrubar, ela avisou, em tom de ameaça. Na volta, o empolgado ciclista bateu num carro e desmaiou. Acordou no hospital. Nas mãos, a encomenda intacta, não faltava uma gota. Ufa!

Os sebos de POA

Ana Emília Cardoso.

Porto Alegre é uma cidade cheia de sebos
. Quem anda pelo centro ou pelo Bonfim a pé sabe o quanto isso é verdade. São pencas de lojinhas apertadas com livros saindo pelo ladrão, algumas com vinis nas vitrines e as mais ousadas têm até uma arara com roupas usadas estilosas. Estilo rock de décadas passadas, com cheiro de mofo e botões faltando.

Eu passo longe de tudo isso. Sou mega alérgica e só de pensar num brechó meu nariz coça. Os nomes são sugestivos e nada convidativos, como Traça e Ábaco (ou seria ácaro?). Meu deus, ábaco eles deseterraram. Não vejo um há pelo menos uns 20 anos.

Y además, eu prefiro mesmo emprestar os livros em bibliotecas a comprá-los. As da UFRGS são ótimas, com muitos livros bem recentes e vários exemplares dos mais importantes. Como a Sociologia é uma ciência fundamental às outras, todas as bibliotecas têm os livros que eu preciso e elas são próximas entre si. Exceto a de Sociologia mesmo, que é lá em Viamão. Bem fora do meu perímetro ciclístico ou onibusístico.

Ontem descobri o livro-chave do meu projeto de doutorado, se chama A dominação masculina, do Pierre Bourdieu. Perfeito, não fosse o fato de todos os exemplares da UFRGS estarem emprestados (na verdade tem um lá em Viamão, mas não cogito a hipótese de fazer tal viagem) e o livro estar esgotadíssimo nas livrarias como Saraiva, Fnac e Cultura.

Estou lendo no google.livros, em inglês e fechado em pdf. Isso me toma muito tempo e pode me levar a pequenos enganos, porque não consigo desenvolver um pensamento muito lógico tendo que traduzir, sem sequer poder recortá-lo e fazer isso fragmentadamente.

A solução foi ligar para os trocentos sebos da cidade. Peguei uma lista na internet e comecei a romaria telefônica. Alguns são bem moderninhos e têm site com ferramentas de busca e tele-entrega. Genial.

Grande parte não fica muito atrás, atendem rápido e consultam o computador e já dizem logo que não têm. Alguns prometem consultar sua rede e ficam de ligar. Ninguém me ligou até agora.

Vários demoram pra atender e falam com aquela voz arrastada, que faz com que a gente se sinta um estorvo na corridíssima tarde de negócios de um sebo. O mais legal foi o do telefone sem fio.

– Olá, você tem algum livro do Bourdieu?
– Como é o nome do livro e completo do autor?
– A dominação masculina, do Pi-e-rre Bour- di -eu.
– Ô fulana! Dominação da China, Pierre Burguê.

Uma voz mais ao fundo:

– Como?! Dominação burguesa?

Minutos mais tarde:

– Não, minha senhora, sinto muito, não temos.

Como uma comunicação dessas, fica difícil_ E você, tem o livro pra me emprestar?

Sobre os salões

Ana Emília Cardoso

Nunca contei aqui, mas numa época atrás, andei frequentando outro salão (que não o que vou quase todos os dias_meu tratamento de beleza é à conta-gotas), mais ou menos perto de casa e, numa dessas vezes, fiz as unhas com uma louca. Ela me cortou muito. Acho que tem algum problema comigo. Síndrome de abandono.

Existem hoje tantos e tantos salões, que não existe muita fidelidade. No meu bairro deve ter uns 100 ou mais. Na minha quadra tem quatro, que é a média do bairro. Pensando bem, deve ter mais de cem, bem mais. Só nas ruas principais tem uns 20, 30 em cada. Olha, é coisa.

Então, fica difícil não mudar de vez em quando. Afinal, como qualquer relacionamento humano, o convívio no instituto de beleza é permeado por interações que sintetizam diversas relações de poder. Olha a socióloga ressucitando.

Dentro desse panorama de tantas opções, as manicures abundam e sabem que suas clientes não sao garantidas, o que as torna inseguras. Mas, um dia desses, num mega papo com a Ju, a minha #1, que pinta flores e estrelas na Anita, descobri que a categoria é mais perigosa do que eu imaginava.

Ela me falou que a outra (com quem a traí por algum tempo) devia ter me cortado de propósito e que, sim, há quem faça isso. Contou inclusive que a fulana em questão tinha até fama de fazer isso com as clientes.

Pensei e cheguei a conclusão que motivo de tanta raiva é que eu tinha sido cliente dela no passado, mas marcava por telefone com outra, não com ela. Na primeira oportunidade em que teve minhas mãos nas suas, vingou-se pelas múltiplas e escancaradas traições. Me cortou em três cutículas e ainda passou aquela base com formol, que arde. Vaca. Nunca mais vou lá.

Mistérios franco-germânicos

Ana Emília Cardoso.

Se minha família é cheia de histórias, a dele também não fica atrás. Pouca gente sabe, mas os Piangers estão em franco processo de desaparecimento. Entra no google e verás que além de meu célebre marido, pouco resta desta família original de Alsácia-Lorena.

Apesar da região hoje pertencer à França e do nome ter um significado italiano (piangere = chorar), eles são alemães. Resumidamente a região foi povoada por alemães no Império Romano Germânico, invadida por franceses (Luis XV), devolvida à Alemanha, retomada por franceses na I Guerra, incorporada ao III Reich e restituída à França em 1945.

No Brasil, se fixaram na região serrana do Rio Grande do Sul. Em Moreira, próximo à Igrejinha e Gramado. Falavam alemão, comiam pón com salsichón e chemia. Quando conheci os irmãos do vô Hugo, em 2005, eram dois: Ciro e Oscar.

Um deles morava ainda em Moreira, algo como uma estrada de terra em volta de uma pequena montanha. Não consigo imaginar civilização por lá. O velhinho estava mal. Nos pediu para procurar sua filha em Gramado e lhe encomendar remédios. Bem, Gramado é grande, e talvez ele não soubesse disso. Não encontramos a tal filha e o velhinho morreu naquela semana de problemas do coração. Não foi culpa nossa.

O outro Piangers morava num chalé grande, de madeira, ao lado do hotel La Hacienda, em Gramado. Eles adoram essas casas em formato de chalé. O vô sempre fala dos chalés que construiu por Novo Hamburgo.

Este nos lembrou muito um membro da Família Buscapé. Era inverno e o sol brilhava. Ele, que era o mais cabeludo e barbudo dos três, aproveitava o solzinho no interior do seu ‘auto’, um fusca do tempo do epa.

Levou um baita susto ao ver a gente. Parecia que não falava com ninguém há tempos. Soube que morreu no ano passado. Mas, o que há de estranho nisso? Explico. Cada vez que um novo Piangers nasce, ou alguém casa e muda seu nome para Piangers, alguém da escassa família morre. Assim tem sido, o que eu brinco ser a Maldição dos Piangers, em nome da qual não mudei meu nome de solteira.

A samambaia fica

Ana Emília Cardoso.

Não se assuste, cara leitora, porque, apesar da febre*, eu não surtei e não, não vou falar da mulher samambaia. Meu assunto é um bocado mais antigo, do tempo que as mulheres não eram frutas nem verduras, muito menos folhagens demodés. No máximo não se depilavam nem um pouco, ao contrário de hoje em dia, e eram chamadas de Mata Atlântica ou selva amazônica em algumas situações.

Este caso aconteceu no fim dos anos 80, em Curitiba, na Rua Nilo Cairo, número 132, ed. Dona Henriqueta, quinto andar. Endereço de minha avó, Ema Mazalotti Cardoso.

Os motivos que me fazem escrever essas histórias são variados. Entre os quais, eu destaco: me lembro com clareza, não quero que essas histórias se percam e_ porque é muito mais fácil escrever sobre terrenos conhecidos e familiares.

Estou fazendo um curso de terapia literária com o premiado poeta e cronista Fabrício Carpinejar. Na semana passada ele nos explicou este assunto com a seguinte imagem: quando fazemos uma viagem longa, nem sabemos por onde começarmos o relato e, muitas vezes, nos calamos por não conseguir escolher o que contar. Em contrapartida, se vamos até Cachoeirinha, voltamos cheios de histórias e opiniões. Dito isso, voi-lá ao caso da samambaia.

Quando minha avó morreu, de câncer no pâncreas, algumas primas ficaram um tempo morando no apê dela. Bem, ela era de 1910. Se viva, completaria 100 anos em 29 de janeiro do ano que vem. Ou seja, era uma pessoa de antigamente. Sua casa era cheia de trequinhos que ela guardava há décadas, como convinha a qualquer pessoa que tivesse passado pelas guerras.

Um desses souvenires de vida, em especial, não estava muito de acordo com o senso estético de minhas primas, uma samambaia gigante, de plástico pra piorar.

Não foi uma nem duas vezes que elas tiraram tal adorno da sala de visitas. Botaram-no na área de serviço. E no dia seguinte, lá estava a ‘folhagem’ de volta à sala, bem no lugarzinho que a teimosa da Dona Ema gostava. Ai ai ai.

* Não sei como peguei uma gripe fora de época e estou péssima.

Uma inimiga no elevador

Ana Emília Cardoso.

Quem nunca se desentendeu com algum vizinho que atire a primeira pedra que mande um comentário malcriado.

Eu sou senhora de me dar com vizinhos de outra gerações, as mais antigas mais especificamente.

Em Floripa, a dona Maria, era a minha amiga do prédio. Parceira para almoços, conselheira matrimonial e tudo mais. Morava no primeiro andar, por causa das escadas, como a maioria dos velhinhos de prédios sem elevador. Já escrevi sobre ela em outros posts. Dia desses ligou, me convidando para a mega festa de 70 anos. Grande Dona Maria.

Logo que cheguei aqui, no fazendão, conheci um casal que pesou inclusive na escolha do imóvel. Francisco Cabeda, coronel aposentado, fraternalmente nos ciceroneou no Ed. Viña del mar quando procurávamos imóveis por aqui.

Os bons recuerdos que tenho da Rua Costa em grande parte de devem ao casal Cabeda; Vera e Seu Cabeda, a quem ela – a Vera – chama Juca. Eles eram pau pra toda obra, entendiam de todos os assuntos e me emprestaram toneladas de alimentos não perecíveis, temperos, telefone quando presa para fora de casa e por aí afora. Éramos vizinhos de porta e grandes companheiros de feiras. Também já escrevi sobre eles aqui.

No entanto, em meu mais recente endereço, pela primeira vez na vida, odeio uma vizinha geriátrica.

A conheci na academia, falando mal da Edê, uma personal meio gordinha que atende vários moradores do condomínio e é praticamente um patrimônio público-privado. Sabe aquelas pessoas de idade que falam mal dos outros na própria frente? Minha inimiga é assim. Personal gorda? Acho um absurdo! E além do mais, sabe o que ela faz? Faxina, destilou a víbora.

Na mesma ocasião me arrastou à sua casa. Contou que vai sempre à Munique. De fato, aquela decoração móveis de Gramado, com os tons do Mini Mundo não deixavam qualquer dúvida de uma estreita relação com o mundo germânico. Nada contra os alemães_ adoro cerveja, casei com um descendente e não dispenso uma salsicha bock com mostarda jamais.

Mas essa velha_ ah, detesto. O motivo de tamanho desafeto é simples: ela é mesquinha, muito mesquinha.

Em uma inspirada manhã de domingo, fui ao Moacir, comprei um filé mignon e lá estava eu flambando-o para um stronogoffe quando percebi que não tinha arroz. Passado o susto, pensei de minha forma linear: vou pedir a algum vizinho.

Como não conheço os do meu andar, peguei o elevador rumo ao terceiro. Destino: casa da Sica, um gringa de Bento Gonçalves, criatura mais doce, impossível.

No elevador, no entanto, encontro a supracitada senhora e lhe exponho o motivo do passeio vertical. Ela, mui solícita, me chama à sua casa e me empresta uma xícara do grão.

No dia seguinte, isso mesmo, menos de 24 horas depois, dim-dom. Lá estava ela, caneca em punho, querendo o pagamento. Sorry, mas eu nunca vou ao mercado. Tudo bem, ela não me conhecia direito, não tinha obrigação de saber.

A partir daí, parou de falar comigo. Um dia eu disse: Ah, to te devendo arroz, né?! E ela: Pois é, to esperando até hoje. Pegou emprestado, tem que devolver. E fechou a cara.

Ah, vai se ferrar
. Às vezes penso em botar um sacão na porta dela. Mas, nunca sei se ela está por aí. Acho que os filhos todos moram fora do Brasil e ela viaja bastante. Também, com uma mãe dessas.

Meu pecado: falo mal e não quito a dívida; minha penitência: encontrar com a bruaca de vez em quando.