Arquivo do mês: setembro 2009

No are babas

Aqui em casa, na Casa de Anita, não se vê novela. Eu nunca tive esse hábito e depois que virei mãe, o Discovery Kids é -de longe – o canal mais assistido no lar.

Ouvi dizer que isto é um consenso entre as mães. Adorei, nem fui atrás para saber se é verdade. Me sinto menos idiota assim, de ficar ouvindo tan ran ran ran ran – tan tan o dia todo, como se isso fosse normal. Pior é quando a Anita nem tá em casa e eu ligo a tv e -SIM- eu assisto desenhos como Louie ou Mr. Maker. São ótimos para aprender a fazer coisas e desenhos.

A situação se agrava se eu confessar que nossa tv tem mais de 100 canais. Melhor nem pensar no assunto. Não comentem, por favor.

Na semana passada a Anita falou que queria ver novela porque ela adorava novela. Eu sei que a tal Caminho das Índias foi um sucesso e várias pessoas próximas a mim (acho que todas na verdade) assitiram e incorporaram os are babas ao seu vocabulário.

Ela disse que todos os coleguinhas viam a novela e que ela também queria ver. Só não sabia que já tinha acabado, mas isto é um detalhe. Quando eu perguntei porque ela gostava, ela disse: porque tem beijo na boca, lógico. Socorro!

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Não há machismo no RS? É uma piada?

Ana Emília Cardoso

Na semana passada meu irmão mais novo estava aqui fazendo um curso de trauma. Ele é médico. Lá pelas tantas, entre um passeio e outro, lá estava eu com meu discurso de indignação contra o machismo estúpido dos pampas.

Foi muito fácil provar pra ele que o que eu falo não é bobagem. Fomos ao café do Gasômetro (horrível e decadente, por sinal) para fazer um lanche. Ele e sua esposa pediram café, eu pedi uma sopinha e pão de queijo pra Anita. Eu pedi a conta. Adivinha pra quem o garçon entregou a conta? Bingo, pro meu irmão – que nem tinha comido – óbvio.

Eu peguei a comanda e paguei. Entreguei ao garçon. Adivinha pra quem ele devolveu o troco?

Não precisei falar mais nada.

Medo de avião

Ana Emília Cardoso

Nunca tive medo de avião, antes pelo contrário. Eu adorava viajar de avião, não tava nem aí para turbulências e sempre deixei a Anita engatinhar, correr e se divertir em aviões. Mas, depois da sucessão de acidentes graves que ocorreram este ano eu virei uma pessoa fóbica.

Eu morro de medo, fico tão tensa quando viajo – mesmo que só até Curitiba – que acredito ganhar umas boas rugas a cada trecho. Se eu tivesse que viajar diariamente a trabalho, poderíamos aplicar a mim a lógica canina_ multiplicando cada ano por sete e eu já eu seria uma matusalém.

Dá um zoom e se imagina BEM mais perto que isso.

Dá um zoom e se imagina BEM mais perto que isso.

Ontem, desafiamos nossos medos e ficamos assistindo os pousos no Salgado Filho, aqui em Porto Alegre. A gente foi levar meu irmão no aeroporto e estava o maior temporal. Saindo de lá, fizemos o retorno e estacionamos antes do monumento do laçador [um ponto turístico, acredite ou não].

Fonte: Alan Mezzomo, chupada do flickr.

Fonte: Alan Mezzomo, chupada do flickr.

Ficamos bem embaixo da linha elétrica, o exato caminho dos aviões. Em vinte minutos, 5 aviões passaram por cima de nossos narizes. Bem pertinho. Parece um programa meio kamikaze, mas é tão divertido. Várias pessoas fazem o mesmo. É pura adrenalina, parece que a gente tá num filme. Melhor que usar drogas, não?

Saia justa na pracinha

Ana Emília Cardoso

A sinceridade infantil é uma virtude perigosa. Minha filha, a Anita, tem um ‘namoladinho’ na creche. Do nada a mãe dele parou de conversar comigo e com o resto da turminha que curte um happy hour pós-escolinha, a gangue da pracinha.

Quando digo parou, é parou total mesmo
. Antes, ficava de papo, vinha aqui em casa às vezes ou nos convidava pra ir na casa dela. Ultimamente mal cumprimentava. Estranhésimo.

A hipótese mais provável na minha opinião é que uma outra mãe tenha falado mal de mim pra ela. O motivo? Quando estávamos de quarentena por causa da gripe A do meu marido, um dia fui no mercadinho, ou ‘armazém’, como diz a avó da Ingrid (outra guriazinha da turma), e encontrei essa mãe com seus dois filhos.

Ela não os estava levando na escola nem saindo de casa há duas semanas com medo da gripe. E eu, toda serelepe, falei: Ah, nada a ver_ meu marido tá com a gripe e eu não estou desesperada. A mulher agarrou os filhos e começou a sair do mercadinho, andando de costas. Tive que rir. E eu vi elas de ti-ti-ti depois disso.

Bom, o que aconteceu eu não sei, só sei que a Anita nos ouviu comentar que a sua sogra de brincadeirinha andava estranha. Na sexta-feira passei por uma das piores saias justas da minha vida. Nos encontramos na saída da escola e não é que a Anita perguntou pra ela, bem séria: Ô mãe do fulano, eu to bem preocupada contigo. Por que você não fala mais com a minha mãe?!

Constrangimento geral.
Eu tentei consertar de todas as formas. Até o guarda ficou sem jeito. A Anita foi direto ao assunto, incrível. E o mais incrível ainda é que o resolveu, pois ontem, segunda-feira, a tal mãe estava toda sorridente na pracinha.

Mas, dessa vez, foi tarde demais, pois nós já estávamos indo pra casa de outra mãe fazer uma reunião e tomar um espumante e ela ficou de fora.

Maternidade e vaidade

Ana Emília Cardoso

Quando pensei em escrever esse texto, achei que era uma grande babaquice. Mas, depois, ponderei que a vida é mesmo um apanhado de babaquices e que eu deveria por esta ideia no papel blog.

Tenho conversado com muitas mães e noto que nós temos uma dificuldade enorme de estabelecer um limite em até onde somos mães e a partir de onde voltamos a ser mulheres. Porque é muito difícil ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Um primeiro passo me parece ser deixar claro à prole que você não vive 100% em função dela, que tem vida própria. Se você convencer seus filhos disso, já é um ótimo caminho para convencer a si mesma. Dói deixar os filhos e trabalhar? Às vezes dói um pouco, mas é uma dor saudável.

Nós somos responsáveis pelos nossos filhos, mas não somos as pessoas com uma carta de exclusividade sobre eles. Temos que compartilhá-los com outras pessoas, até porque – um dia- sairão de baixo de nossas asas e eu espero que este dia seja muito tranquilo, sem qualquer sofrimento.

Outra coisa complicada é nossa auto-estim
a. Depois que nascem os filhos, serão eles e não nós, o foco central das fotos, dos afetos e o assunto principal dos encontros. Vida de mãe não é fácil, a gente vive descabelada, suja de comida, com dor nas costas e com um déficit de sono que em nada colabora com o nosso bem-estar.

Por isso, é muito importante lembrar que, mesmo sendo mãe, uma mulher segue tendo que se cuidar, fazer depilação, pintar as unhas, os cabelos, não engordar muito ou simplesmente continuar se cuidando na mesma medida que o fazia antes.

Se você não tinha vaidades, tudo bem, continue não tendo, o que não dá é pra se largar, tornar-se uma pessoa descuidada consigo mesma porque está sempre em função de cuidar dos outros, virar a mãezona (inclusive do seu marido).

Conheço muitos casos de mulheres que ficaram muito mais femininas e vaidosas depois de serem mães. E isto é muito bacana, como diria a Dani Entrudo. Eu, feminista que sou, acho que a gente tem que ficar bonita, não pra agradar os homens, mas pra nós mesmas. Dizem que as mulheres se arrumam para causarem inveja umas nas outras. Acho isso meio maldoso. Mas, enfim, se a gente se cuidar pra nós mesmas, pode ter certeza que as mulheres vão notar e os homens também. E até os nossos filhos percebem e ficam orgulhosos.

Mes madeleines et ma recherche du temp perdu

Ana Emília Cardoso

Estou num momento extremamente nostálgico e assim como as madeleines de Marcel Proust, memórias associadas ao paladar e o olfato me têm feito viajar no tempo, pra muitos anos atrás.

Ainda ontem, jantando no BarraShopping com mi marito, em busca de uma pizza com a massa bem fininha para acompanhar o chopp antes do filme Os Normais 2, me lembrei (pra quê?) da incomparável pizza do Anjo da Guarda.

Qual será o segredo daquela fatia de pizza com molho e queijo muzzarela? Não tem explicação, era algo fora do normal. O dia de pizza na cantina era quarta-feira e a fila era imensa. Eu, que vivia de vento quando criança, chegava a comer três fatias. Sei de ex-alunos que frequentam as festas juninas da escola até hoje por causa da pizza. Até eu iria se morasse lá.

Mais tarde, não sei por que cargas d’água, nos lembramos das balas Xaxá. Meu deus, minha vida era bala Xaxá quando eu tinha uns 14, 15 anos. Eu trocava todos os meus vts por bala na hora do recreio do Colégio Dom Bosco das Mercês. Cadê elas será, hein? Se alguém souber, principalmente, onde encontrar as de abacaxi, deixe um comentário aí, por favor.

Outras comidas que me fazem viajar no tempo, mas essas eu consigo fazer são a sopa da minha vó paterna (vó Ema) e a geleia de morango da minha avó materna (Alzira). A sopa é super fácil: batata, cenoura, macarrão pai nosso, caldo knorr, queijo ralado e um pouco de vinagre. Parece que eu estou estou na casa da vó Ema. Ouço até o barulhos dos carros. Ela morava num apê numa rua mega barulhenta e adorava ficar na janela contando os fuscas. Coisa de gente antiga.

A geleia já tem um lance mais complexo. Eu amava essa geleia e a minha avó portuguesa (a outra era italiana Lucchesi Mazalotti) fazia de vez em nunca. Até porque as formigas sempre atacavam os pés de moranguinho dela. Pra encurtar a história, a vó Alzira morreu nova, com menos de 70 anos, de ataque fulminante.

E, adivinha? Tinha feito uma geleia pra mim. Saboreei aquela geleia póstuma com a dupla tristeza de saber que não tinha mais avós e que nunca mais comeria algo semelhante. Mas, tchan-tchan-tchan-tchan_ anos mais tarde decidi fazer uma geleia, sem receita nem nada, e não é que saiu idêntica à da minha avó? E é uma delícia, quem conhece sabe, é espetacular. Obrigada vó, por me soprar a receita no ouvido.

Mais histórias assustadoras

Ana Emília Cardoso

Quando eu morava em Curitiba costumava ir à Ilha do Mel nos finais de semana. Pra quem não conhece a ilha, há um detalhe que considero muito importante em sua constituição. A população nativa é formada de apenas duas grandes famílias, o que torna todos parentes em potencial.

Geneticamente, esta combinação de indíviduos de mesma origem é problemática, uma vez que tende a potencializar patologias nos grupos. Quem já esteve na ilha, certamente percebeu que os nativos (uso este termo, pois eles mesmos se orgulham de ser, não há uma detonação pejorativa) são todos muito parecidos.

A família Valentim, que se concentra nas Encantadas, na Praia Grande e no centrinho do Praia do Farol é uma delas. Um de seus mais ilustres membros se chamava Hildo e era o protagonista dos pesadelos de muita gente.

Ele era filho da vó Maria e irmão da Tia Claudina, famosas pelo surfcamp no canto direito da extensa Praia Grande. Quando o conheci, ele deveria ter uns 40 anos, era muito magro, com a pele bem escura e havia perdido a razão há algum tempo. Seu passatempo era encarar as pessoas e simular (ou não) que estava possuído por algum demônio.

Lembro de um carnaval, em 1997, que passei no camping da tia e o Hildo era meu vizinho de barraca. Naquela época a ilha ainda não tinha luz elétrica. Havia luz de gerador até as 2 hs da manhã e depois disso era um breu. De qualquer forma, a longa caminhada (uns 6 km) da tia até o agito (centro de Brasília) exigia não só lanternas como uma boa dose de coragem para encarar as trilhas.

Não que fosse perigoso, mas era sabido que o Hildo adorava assustar as pessoas na trilha. Especialmente algumas meninas, como a minha amiga Camila, que morria de medo dele.

Quando estava muito escuro, a gente ía de mão dada na trilha, sempre com outros grupos. E, de vez em quando, as gurias se davam conta que estavam de mão dada com o Hildo. Comigo nunca aconteceu, acho que era porque eu não tinha medo dele.

O mais engraçado eram os gritos de de: olha o Hildo!, de 5 em 5 minutos. Quem não tinha medo, zoava pra caramba.

No ano de 1999 eu morava na pousada do fotógrafo Flávio Vidigal, no Beco do Surfista, em Florianópolis. Um dia, o Vidigal estava todo nervoso porque a sua casa da Ilha do Mel tinha sido queimada. Adivinha quem estava dentro, causou o acidente e morreu queimado? O Hildo. Deve ter sido uma morte horrível, pois contam que uma vela ateou fogo ao teto, que caiu em cima dele, prendendo-o.