A fogueira de São João tem o selo do MEC

Por Ana Emília Cardoso

Nunca fui uma grande entusiasta da profissão e muito menos considerei a faculdade de jornalismo uma escola de importante aprendizagem humana. Não à toa fui estudar sociologia no mestrado, mas desregulamentar o diploma é sacanagem.

Ontem o STJ, na figura de Gilmar Mendes, declarou a inconstitucionalidade da exigência do diploma para o exercício da profissão.

Olha isso:

Às 15h29 desta quarta-feira o presidente do STJ e relator do Recurso Extraordinário RE 511961, ministro Gilmar Mendes, apresentou o conteúdo do processo encaminhado pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo e Ministério Público Federal contra a União e tendo a FENAJ e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo como partes interessadas. Após a manifestação dos representantes do Sindicato patronal e da Procuradoria Geral da República contra o diploma, e dos representantes das entidades dos trabalhadores (FENAJ e SJSP) e da Advocacia Geral da União, houve um intervalo.

No reinício dos trabalhos em plenário, às 17h05, o ministro Gilmar Mendes apresentou seu relatório e voto pela inconstitucionalidade da exigência do diploma para o exercício profissional do jornalismo. Em determinado trecho, ele mencionou as atividades de culinária e corte e costura, para as quais não é exigido diploma. Dos 9 ministros presentes, sete acompanharam o voto do relator. O ministro Marco Aurélio votou favoravelmente à manutenção do diploma. (FENAJ)

Fico pensando nas implicações. O que acontecerá com as faculdades de jornalismo? Os economistas tomarão nossos lugares? Ou os engenheiros? Se forem os historiadores ou linguistas, menos pior.

Eu sou de uma época de transição, do analógico para o digital. Quando entrei no curso, a gente usava máquina de escrever ainda. Não sei se eu era muito nova ou se o curso era ruim mesmo, mas me lembro de ter aprendido pouca coisa de fato lá.

Verdade seja dita: muita gente entra escrevendo mal e sai igual da faculdade (é o meu caso, inclusive). Os cursos são meio técnicos, meio teóricos e tem muita enrolação. Quem não tem senso crítico, não gosta de ler e não aceita críticas, se não fizer bons estágios, não vejo muita solução.

Eu aprendia mesmo nos estágios, convivendo com feras que tinham ganhado prêmios Jabuti, Esso, com jovens talentosos e jornalistas experientes. Vania Welte, Julio Tarnowski, Denis Ferreira Netto. Que saudades dos meus estágios ali pelo Centro Cívico de Curitiba.

Desde pequena eu lia muito e sempre escrevi bastante. Cometia os mesmos erros que hoje, acredito. Talvez até menos, porque naquela época não usava tanta gíria e nem abreviações como faço hj.

Jamais vou me esquecer de uma vez que escrevi ‘apartir’ junto num release. Eu achava que era assim. Aí um professor de português que trabalhava na Secretaria de Comunicação do Governo do Paraná (era Lerner) me corrigiu. Passei vergonha, mas nunca mais errei.

Colegas, convoco todos para uma grande fogueira com nossos diplomas na noite de São João! Faremos um salva de palmas à o presidente do Supremo, ao banqueiro Dantas, ao Sarney e, por que não, até a Yeda Crusius?

É um salve-se quem puder, eu nem sei o que pensar disso. Um coisa é certa, já risquei a comunicação dos meus planos de doutorado pro ano que vem.

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2 Respostas para “A fogueira de São João tem o selo do MEC

  1. Relato do jornalista, Heródoto Barbeiro, sobre sua formação:

    “Foi uma experiência extraordinária mudar de posição na sala de aula. Sair da frente e me misturar com os alunos, muitos dos quais meus ex-alunos e agora meus colegas na escola de
    jornalismo. Voltei ao ambiente universitário com grande prazer e com humildade fui assistir aulas de alguns ex-colegas, e de algumas disciplinas que tinha lecionado em faculdades de jornalismo. O aprendizado humano e acadêmico foi enorme. Senti um engrandecimento sentado no meio da turma, fazendo amizades, voltando aos botecos da porta da faculdade, que há tanto tempo
    tinha deixado de ir, e aprender a fazer jornalismo.

    Deixei de falar e escrever no passado e aprendi a falar e a escrever com os verbos no presente. Deixei a história e passei para o jornalismo. Uma bela mudança. “

  2. Li no orkut de uma amiga que ta cursando jornalismo e adorei:

    “Que tal um telejornal apresentado por Luciana Gimenez e Nelson Rubens? Ou quem sabe uma previsão do tempo por Iris Stefanelli? Legal, agora abra seu jornal e leia uma matéria escrita por Luis Inácio Lula da Silva com fotos creditadas por Ana Maria Braga. Ligue o rádio e opa, a pequena Maísa atualiza você sobre as últimas notícias! Por favor daqui um tempo, quando isso acontecer.. lembre-se de dizer, VALEU STF!”

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