Mulher no volante

Por Ana Emília

Nunca tinha conhecido uma mulher que não dirigisse. Falo muito sério. Cresci em Curitiba e lembro das minhas tias por parte de pai, que moram até hoje numa cidade chamada Palmas, no sudoeste do Paraná, dirigindo sem carteira mesmo e seguindo leis pessoais e intransferíveis. Elas estão hoje com idades em torno de 70 e eu realmente espero que tenham aposentado as carangas e peçam aos netos que as carreguem.

Em 1995, quando completei 18 anos, me sentia um ET por não saber dirigir com perfeição. Como sempre fui meio aloprada com patinetes e depois mobiletes, propositalmente meus pais não me ensinaram a dirigir muito cedo, como fizeram com meus irmãos.

Fui pra auto-escola e achava isso uma vergonha, me sentia uma pessoa incapaz. Naquela época e naquele contexto, no qual a auto-escola era opcional, pegava meio mal ter que apelar pra uma escola pra aprender a dirigir. Mas, ok, meu pai pagou o curso e eu aprendi. Confesso que tive uns acidentes no percurso, mas logo tirei minha carteira. Não no primeiro teste, porque minha vó tinha morrido naquele dia e eu estava perturbada.

Mas, de pronto, marquei mais umas aulinhas e logo logo estava eu com minha carteira, ou seja, um certificado de ‘sou normal’. Talvez eu tenha sido a última da geração 77 a tirar, mas duvido que alguém de 78 tenha tirado antes de mim. Maitê, Dani, Muga, Pérola… todas as minhas amigas da época já íam e vinham com os carros dos genitores pra cima e pra baixo.

Dois anos mais tarde, me mudei pra Florianópolis, com um carro. Lá conheci muita gente do Brasil todo. E todas, absolutamente todas as minhas amigas dirigiam. Jandira e seu fiestinha vermelho, Tania e seu gol azul que depois evoluiu para carros importados que eu nem sei o nome, Ju e seu palio, sempre impecavelmente limpo, Mika e a Penélope Charmosa, um gol vermelho com tanta prancha, toalha e tralha dentro que duvido que ela usasse o retrovisor, as gurias do Rocambole – Carol e Camila com carros de entregar doces, Vicky e os jipinhos da sua mãe, Betinha, filha do velho Andrino com a quantum que diz a lenda foi paga em notas de R$ 50,00… olha, a lista é longa. Mas, resumidíssimamente: não havia em meu caminho registro de uma guria ou mulher que não dirigisse.

Quando eu mudei pra Porto Alegre… tan nan nan nan… Surpresa!!!!!!!!!!!!!
Não só conheci mil meninas que não dirigiam como conheci mulheres cujos maridos não as autorizavam a andar de carro comigo!!!!!!!!!!!Imagina a minha ousadia: eu dirigia S O Z I N H A até Novo Hamburgo. Oh! O ano era 2006, o Inter era campeão mundial e eu me sentia teletransportada para a Idade média das relações de gênero.

Muitas garotas que não dirigem são super descoladas, algumas até tiraram carteira, eu não entendo. Mesmo. Outra coisa meio assustadora aqui são as discussões nos trânsito. Se você é mulher, respire fundo antes de comprar uma briga; seu sexo pode ser motivo de agressões verbais variadas e – pasme – você pode até ser agredida fisicamente. Sim, um dia desses uma senhora de 60 anos tomou uns cascudos em plena av. Ipiranga (uma das principais de Porto Alegre) por raspar seu fusca caindo aos pedaços em um educado ser desta terra. Tenho uma amiga juíza, que foi agredida mesmo grávida de 9 meses por um segurança de shopping.

Eu mesma já quase apanhei por estacionar muito próximo de outro carro naquela pracinha ao lado do Praia de Belas. Era um sábado, mega ensolarado, eu tava com a Anita, ía pegar dinheiro no banco. Um idiota tomando chimarrão começou a me xingar porque eu tinha colado no carro dele. Esse ouviu. Tudo sobre o porquê dos gaúchos serem tão odiados em Floripa, sobre como uma pessoa podia ser tão estúpida numa manhã como aquelas e como ele – por tão pouco – foi grosseiro comigo ao invés de conversar e o pior, na frente da namorada (coitada dessa mulher) e de minha filhinha. Babaca.

Bem é verdade que aqui temos mais ônibus, lotações ótimas, táxis mais baratos e o plano diretor da cidade prevê pouquíssimas vagas nos apartamentos, que aqui são chamados boxes. Mas, mesmo assim, isso não é motivo para as mulheres aceitarem serem discriminadas e ofendidas no trânsito ou, pior ainda, nem se permitirem o direito de dirigir. Ao contrário do que pensam, os gaúchos têm muito que aprender com o resto do Brasil, principalmente no quesito respeito.

Dedico este post às minhas amigas gaúchas que são faca na bota, dirigem, fazem e acontecem.

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5 Respostas para “Mulher no volante

  1. Pois eh vc esqueçeu de mencionar que vc era a “tartaruguinha roxa” kkkk lembra…bem já esqueci das barberagens….nao quero assustar os maridos das tuas amigas gauchas !!!!!!! alias carro importado que nos deixou a deriva em plena via expressa, vc de micro short esperando a sogra!!!!!!! saudades purple turttle!!!!

  2. Minha Linda que saudades sem fim!! Ler o seu Blog me troxe recordações de um tempo onde ser mulher, morar e estudar em uma cidade longe da famila e principalmente dirigir era o suficiente para se considerar feminista ao extremo……kkkkk
    Se Aquele fiestinha falasse eu teria que mudar de Planeta…..lembra que quando o vendi só dava para entrar pelo morta malas????? kkkkk
    Muitos Beijos na Family

  3. Parabéns pelo seu dia!!!! Hoje é dia dos Jornalistas, e eu escrevi troxe ao invés de trouxe em homenagem a vocês jornalistas….. kkkkkkkkk ( eu como sempre solidária com os jornalistas e os com meus erros de português)

  4. Como aprendi a dirigir…com 9 anos…e tenho 2 anos de vantagem no DNA…nunca era seu passageiro…em CWB…fui, o ser…em Floripa…e digo que você é uma excelente motóra. Dirigir em Floripa…com manézinhos…gauchos, paulistas…é algo surreal. Sair das rápidas…estacionar naqueles precipícios que você morou…realmente…colocar aquele adesivo dos vegetebas: Cuidado, freio para animais…é pouco…hehehehe Podia ser o apenas: RESPEITO NO TRÂNSITO!

  5. Reidy Rolim de Moura

    Nossa Ana, não imaginava tamanha necessidade de desenvolvimento das questões de gênero no RS… adorei sua denúnica!!!

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