Arquivo do mês: março 2009

dinâmicas

por ana emília

larguei aquele trabalho. em nome do bom senso, dos princípios humanos e de minha saúde mental. digamos que as relações de trabalho lá não são muito respeitosas nem tampouco a forma com que a empresa trata seus clientes o é. mas, águas passadas.

essa semana estou numa maratona de provas para um novo emprego numa empresa para-estatal de idoneidade acima de qualquer suspeita. provas, dinâmicas, testes, entrevistas. até parece que a gente vai entrar pra um doutorado em harvard, que nem deve ser assim tão burocrático.

eu me divirto nessas situações. nada é mais bizarro que uma dinâmica de grupo. imagina a cena: várias pessoas sentadas em círculo se olhando. aí as psicólogas falam pra tu te apresentar. pronto! tá armado o espetáculo da tragédia humana. ontem teve gente que falou até do cosmos.

perólas: um cara que disse que ele estava escolhendo entre diversas propostas e não estava sendo escolhido. tiro no pé. teve uma cara que queria puxar o saco de gaúcho, então ele disse que estava feliz em viver em porto alegre, um oásis, uma verdadeira manhattan. ah, por favor, né? ainda bem que ele não passou adiante, senão eu desacreditava para sempre nas seleções.

ah, todo mundo dizia que gostava de gente porque a vaga pressupõe a gestão de equipes. um cara totalmente sem noção falou umas três vezes em sua extensa apresentação: pra mim colega é colega, não é amigo jamais. não misturo as coisas. ele foi totalmente na contramão da dinâmica.

é muito legal conhecer pessoas, pelo menos eu acho. às vezes aquela vaga não é tua, mas tu acaba conhecendo alguém que ainda pode vir a trabalhar junto. anyway, se alguém souber de algum trabalho legal, me dá um toque.

O trabalho serve pra que mesmo?

por ana emília

estou com saudades. de mim mesma. há 3 semanas comecei num trabalho novo, que me abduz da rotina que levava há meses – das 7 hs às 18 hs – e me devolve à vida, à anita, à pracinha, à casa e ao casamento completamente sem forças.

que coisa, justo eu… a presidente da comissão da pracinha, a mulher que faz sopa toda santo dia, sempre disposta a tomar mais uma, a mais disponível para bate-papos na rua, no salão e no msn… virei uma pessoa offline. offline da vida. e também não sei o que é um teclado há dias. mal e mal checo meus emails, cada dia mais escassos.

como feminista não me vejo no direito de abdicar de trabalhar, ter uma certa independência financeira, uma vida profissional, uma carreira e todas essas coisas… mas, que diabos, cadê os empregos de meio período do tempo de minha mãe?

eu quero correr, andar de bicicleta, falar com minhas melhores amigas, varar a noite com meu marido, brincar com minha filha. mas, ao mesmo tempo, não quero ser uma dona-de-casa. ó dilema cruel. vou fundar um movimento pela extinção do horário integral de serviço.

Saudosismo

Por Dani E

Hoje aqui no meu trabalho passamos a tarde escutando a Rádio Continental FM, que é uma emissora que só toca músicas antigas, anos 70, 80, 90 e raramente algo atual. Foi muito engraçado, pois na medida em que as músicas iam rodando, nos lembrávamos do tempo de colégio, das reuniões dançantes na garagem, dos filmes da ‘Sessão da Tarde’, da novela das duas, de personagens inesquecíveis…

Isso me fez lembrar também que quando eu tinha uns 8 anos de idade, achava que aos 20 ia ser uma pessoa adulta, com a vida formada e com o primeiro filho a caminho. Hoje aos 28, ainda não sei se terei a coragem de ter um filho. Quando a gente é criança a nossa percepção de mundo é muito limitada e, por isso mesmo é que é legal ser criança. Imagina se todas as crianças fossem uma espécie de ‘Maísa’ do SBT? Que medo, ia ser horrível!

Criança tem que ser criança, tem que ser ingênua, ser espontânea, ter atitudes inesperadas, fazer os adultos passarem vergonha com perguntas desconcertantes e, principalmente, não ter a falsidade no olhar. Essa é a sensação mais mágica que uma criança te passa, os olhos da verdade, doa a quem doer.

Dia das Mulheres

Por Ana E

Hoje é nosso dia. Então quero comemorar o direito à imperfeição, a não conseguir manter a casa arrumada, a perder a paciência com os filhos, a perder o emprego, a ter umas celulites, a gostar de cerveja, enfim, o direito de ser uma pessoa normal.

Eu costumo reclamar muito do machismo, mas nossas conquistas têm um outro lado, o da mega-acumulação de funções que também é muito cruel. Trabalhamos fora e quando chegamos em casa ouvimos: o que tem para jantar? E por aí vai… se a camisa de alguém tá manchada, a falha é sua; se você tá ficando gorda, a falha é sua. Chega!

Estou cercada de super mulheres que parece que competem com elas mesmas o tempo todo e que se esforçam ao máximo para serem excelentes em tudo. É impossível e a quantidade de rugas ganhas bota todo o esforço gasto no quesito ‘estética’ fora.

Cada dia mais em convenço que é perda de tempo ter essa obstinação. Faça seu melhor, ok, mas não se mate para atingir padrões que talvez não lhe caiam bem. O que quero dizer é que nessa busca pela perfeição as pessoas tornam-se piores. Tem uma frase de Nietzche que diz algo como ‘tome cuidado ao exorcizar seus demônios porque eles podem ser o que você tem de melhor’.

Ontem, fui ao shopping com minha filha de 3 anos, sua melhor amiguinha de 4 e a mãe dela que também vem a ser uma de minhas melhores amigas. A mãe queria comprar tinta de cabelo. Fomos nas Americanas, porque é mais barato sempre. Depois ficamos com as meninas na seção de brinquedos vendo Barbies, uma por uma com elas. Não sei bem ao certo se é divertido ou é meio torturante esse tipo de programa pra criança, porque elas veem tudo e nós não compramos nada, mas… enfim elas parecem adorar.

Aí tinha uma Barbie muito linda, morena, com um vestidinho azul plissado, sandália tipo bota, um arraso. Foi a que a gente (adultas) mais gostou, mas vimos e comentamos sobre várias. As pequenas estão numa fase de obsessão por princesas então a opinião delas não varia muito, apesar de todo o esforço da Mattel em acompanhar a moda. Pelos meus cálculos ficamos uma hora lá.

De noite estávamos jantando e folheando o encarte das Americanas. Na seção das Barbies tinha uma que a minha amiga falou: olha essa! que linda! E eu: tá, mas tu não viu lá? Na verdade eu até pensei em mostrar pra ela, mas ela tava vendo as Susies com uma cara tão saudosista que eu não quis tirá-la daquele transe.

Me senti o Seth Rogen e companhia no ‘Virgem de 40 anos’ quando eles ficam horas naquelas brincadeiras de sabe-como-eu-sei-que-você-é-gay. É tão legal isso, é tão bom falar besteira, rir e não ser perfeita que eu gostaria que todas as mulheres parassem de querer ser sempre certinhas, responsáveis e poderosas e curtissem mais a vida. E não só hoje, no nosso dia, mas sempre.

Isso te parece justo?

O Brasil é o país com a maior diferença salarial entre homens e mulheres. Do mundo!!!!!!!!!!

Talvez seja por isso que este país não vá para frente.

Um episódio tragicômico

Por Dani E

Preciso confessar uma coisa. Algumas vezes já menti nos meus currículos vitae. Fiz isso porque na época da faculdade passei por várias empresas, então não queria mostrar essa minha ‘fragilidade’ ao meu futuro empregador. Alterava tempo de emprego, algumas funções ou responsabilidades a mais, etc, mas tudo pouca coisa. Eu era imprecisa, digamos. Mas, um dia cometi o meu pior erro: menti que falava inglês fluentemente.

Lembro como se fosse hoje, encaminhei o meu currículo através de um professor da pós que anunciou a vaga. Deu um ou dois dias e eles me chamaram para a entrevista na sede de uma multinacional em Esteio. Lá fui eu bem bonita, de terninho, cabelos chapados, sapato social e bolsa da mãe. Na sala havia 12 candidatas, todas mulheres entre 25 e 30 anos.

Apresentação, dinâmica em grupo, discussões e a hora fatídica: a prova ORAL DE INGLÊS. Na verdade não era nem uma prova, era apenas um blá-blá-blá em inglês, do tipo: o que tu faz, onde e com quem mora, se já morou no exterior, etc. Nós estávamos em um círculo e eu via que a minha hora ía chegar, era inevitável, e eu pensando o que falar, o que falar?! As palavras fugiam, na verdade elas nem vinham até mim, e eu só conseguia pensar em como dizer ‘quero sair daqui’ em inglês!

Bem, quando chegou a minha vez, respirei fundo, fiz cara de paisagem e disse: ‘desculpe, mas não me sinto à vontade em continuar nessa seleção’. Pedi licença, me levantei e fui embora sem olhar pra trás. Bom, dessa seleção veio a lição, não mentir nos currículos e em coisa alguma. Porque, de fato, a mentira tem a perna curta e pode nos botar em saias muito justas.

A morte e a culpa

Por Ana E

Hoje uma ex-vizinha me ligou para comentar que a sogra tinha morrido. Por sogra entenda-se uma velhinha de quase cem anos que vivia numa cadeira de rodas, numa casa geriátrica e que gemia o dia todo, às vezes bem alto. Dava pra ouvir da rua. O asilo era colado ao prédio em que morávamos.

Não sei o nome dela, mas a mãe do seu Cabeda, um coronel aposentado casado com Vera, uma carioca muito gente fina, tinha Alzheimer num grau elevadíssimo. Na semana passada, liguei pro seu Cabeda para saber se havia chegado algum telegrama para mim.

Passei num concurso da Petrobrás há 3 anos e já deviam ter me chamado, segundo o site. Mas, como me mudei duas vezes neste ínterim, não recebi nada. Ele comentou comigo, bem preocupado que sua mãe estava com pneumonia, internada.

Céus, pneumonia em pleno verão é coisa séria. Não deu outra, a velhinha se foi. Finalmente, na verdade. O que eu acho mais louco nessas situações é que as pessoas/parentes ficam num misto de alívio e culpa.

Quando meu avô materno morreu, no ano retrasado, após mais de um mês na UTI, todo entubado, minha mãe não se conformava. Coitada, estava um bagaço, visitava ele duas vezes por dia. Era muito deprimente. Eu acho que quando as pessoas ficam velhas, o melhor que temos a fazer é deixá-las morrer, não entupir de remédios, tubos e sondas.

O grande lance me parece dar atenção necessária aos nossos genitores e progenitores enquanto eles ainda estão bem, curtindo a vida dentro das limitações de cada idade. Tenho certeza que quem faz isso sente bem menos culpa quando os velhinhos morrem. Porque, ausência de culpa, nessa sociedade católica em que vivemos é mera utopia.