Ana Emília Cardoso.
Quem nunca se desentendeu com algum vizinho que atire a primeira pedra que mande um comentário malcriado.
Eu sou senhora de me dar com vizinhos de outra gerações, as mais antigas mais especificamente.
Em Floripa, a dona Maria, era a minha amiga do prédio. Parceira para almoços, conselheira matrimonial e tudo mais. Morava no primeiro andar, por causa das escadas, como a maioria dos velhinhos de prédios sem elevador. Já escrevi sobre ela em outros posts. Dia desses ligou, me convidando para a mega festa de 70 anos. Grande Dona Maria.
Logo que cheguei aqui, no fazendão, conheci um casal que pesou inclusive na escolha do imóvel. Francisco Cabeda, coronel aposentado, fraternalmente nos ciceroneou no Ed. Viña del mar quando procurávamos imóveis por aqui.
Os bons recuerdos que tenho da Rua Costa em grande parte de devem ao casal Cabeda; Vera e Seu Cabeda, a quem ela – a Vera – chama Juca. Eles eram pau pra toda obra, entendiam de todos os assuntos e me emprestaram toneladas de alimentos não perecíveis, temperos, telefone quando presa para fora de casa e por aí afora. Éramos vizinhos de porta e grandes companheiros de feiras. Também já escrevi sobre eles aqui.
No entanto, em meu mais recente endereço, pela primeira vez na vida, odeio uma vizinha geriátrica.
A conheci na academia, falando mal da Edê, uma personal meio gordinha que atende vários moradores do condomínio e é praticamente um patrimônio público-privado. Sabe aquelas pessoas de idade que falam mal dos outros na própria frente? Minha inimiga é assim. Personal gorda? Acho um absurdo! E além do mais, sabe o que ela faz? Faxina, destilou a víbora.
Na mesma ocasião me arrastou à sua casa. Contou que vai sempre à Munique. De fato, aquela decoração móveis de Gramado, com os tons do Mini Mundo não deixavam qualquer dúvida de uma estreita relação com o mundo germânico. Nada contra os alemães_ adoro cerveja, casei com um descendente e não dispenso uma salsicha bock com mostarda jamais.
Mas essa velha_ ah, detesto. O motivo de tamanho desafeto é simples: ela é mesquinha, muito mesquinha.
Em uma inspirada manhã de domingo, fui ao Moacir, comprei um filé mignon e lá estava eu flambando-o para um stronogoffe quando percebi que não tinha arroz. Passado o susto, pensei de minha forma linear: vou pedir a algum vizinho.
Como não conheço os do meu andar, peguei o elevador rumo ao terceiro. Destino: casa da Sica, um gringa de Bento Gonçalves, criatura mais doce, impossível.
No elevador, no entanto, encontro a supracitada senhora e lhe exponho o motivo do passeio vertical. Ela, mui solícita, me chama à sua casa e me empresta uma xícara do grão.
No dia seguinte, isso mesmo, menos de 24 horas depois, dim-dom. Lá estava ela, caneca em punho, querendo o pagamento. Sorry, mas eu nunca vou ao mercado. Tudo bem, ela não me conhecia direito, não tinha obrigação de saber.
A partir daí, parou de falar comigo. Um dia eu disse: Ah, to te devendo arroz, né?! E ela: Pois é, to esperando até hoje. Pegou emprestado, tem que devolver. E fechou a cara.
Ah, vai se ferrar. Às vezes penso em botar um sacão na porta dela. Mas, nunca sei se ela está por aí. Acho que os filhos todos moram fora do Brasil e ela viaja bastante. Também, com uma mãe dessas.
Meu pecado: falo mal e não quito a dívida; minha penitência: encontrar com a bruaca de vez em quando.